15/03/2012

Lâmina

A solidão é lâmina atravessada no estômago.
A dor existe, mas não ceifa.
A vida é maior que a dor,
que incomodada vira sobrevida
a reverberar na agonia do desamor.

06/12/2011

Implosão

Grito preso na garganta, cárcere da voz que ama!

Nó que se faz da lágrima contida e implode na guela!

A boca cala o que sente o coração

E o sentimento reverbera pelas entranhas, contaminado

O ácido da frustração a tudo corrói

Espalha a mágoa, o medo, o melindre

Que destroem

A lucidez ofuscada

Pela sombra da covardia!

26/11/2011

Verdade nua

A verdade nua despe a quem com ela se assemelha,

Estupra a castidade falsa, que se esconde envergonhada,

E ataca com a violência da palavra que apunhala à exaustão!

Resignado, entrega-se à frieza do punhal

Que rasga as vísceras, tripas, coração.

O corpo disforme e violentado não mais se reconhece belo.

É cicatriz, ferida, fétida chaga,

Que desintegra infeliz

Corroído pelo verme da humilhação!

02/11/2011

Voo vitorioso

O voo foi tranquilo, embora o medo fosse maior que a expectativa por uma nova experiência. Entre São Paulo e Vitória foi apenas uma hora, e da capital do Espírito Santo mais quatro horas de viagem pela rodovia BR 101 até chegar à cidade de São Mateus, no norte do estado. Cansaço, medo da estrada, ansiedade... Tensão que valeu a pena, pois permitiu um respiro mais profundo de alguém envolto por preocupações outras na vida insensata da metrópole paulistana.

Litorânea e com ares históricos, a cidade é inesquecível... Não por ser pequena, tampouco pacata ou histórica, mas sim pela receptividade que este jornalista e educador foi recebido pelos jovens educandos do Projeto Araçá, uma ONG dedicada à formação cidadã e profissional de crianças, adolescentes e jovens da cidade nas áreas de artes, comunicação, informática, entre outras.

Foi a minha primeira visita ao Espírito Santo, a primeira formação ministrada fora de São Paulo. Em terras desconhecidas, teria o peso da responsabilidade de falar e conscientizar jovens de diferentes idades sobre direito humano à Comunicação, além de ensinar técnicas de produção de texto, cobertura colaborativa e mídias alternativas.

Das brincadeiras habituais da idade, o interesse foi tomando forma e a curiosidade tomou o lugar do receio de tentar. Alguns, naturalmente mais participativos, não hesitaram em opinar, questionar, escrever, desenhar... Exerciam o direito à Comunicação em um momento para mim especial, embora cotidiano para os jovens da organização, que diariamente colocam em prática os conhecimentos sobre comunicação audiovisual que recebem de seus professores.

Bonita foi a interação com os jovens espírito-santenses, que doce e respeitosamente me chamavam de professor, embora sentindo-se próximos o suficiente para perguntar sobre São Paulo e brincar com o sotaque “chique” do também jovem educador paulistano.

Foi a primeira vez que preenchi e entreguei certificados a um grupo de estudantes, aparentemente satisfeitos com dois dias de formação e atividades. Por isso, pela primeira vez, senti de forma clara, quase palpável, a gratificação em contribuir para a formação de um grupo de adolescentes.

Antes da entrega, uma das participantes perguntou: “Você não vai esquecer da gente?” E eu, no momento da despedida, disse que seria impossível esquecer da primeira experiência fora do meu habitat que permitiu um alçar de voo mais alto, e este, com destino à Vitória, foi sem dúvida, para mim, mais do que capixaba, um voo vitorioso.

29/09/2011

Reciprocidade

São olhares que se cruzam,
Tímidos, discretos
São sorrisos que se correspondem
Intensos, quietos
E o meu coração
Mergulhado em incerteza
Espera o momento certo
Para obter clareza.

Esses olhares e sorrisos, o que são?
No íntimo, espero que sejam
A reciprocidade ao que sente o meu coração.

18/07/2011

Escassez

Não fosse pela demora do ônibus à espera do sinal verde do semáforo para cruzar a avenida, jamais notaria a lamentável cena descortinada na calçada. Da distração pós-expediente no transporte coletivo, despertei para a presença de uma mãe com um bebê sentada na sarjeta, na contemplação da loucura ou da estafa que a miséria impõe.

A criança ensaiava uma brincadeira com um dos pedaços de papel rasgado que depreciavam ainda mais o cenário subumano. Roupas sujas, caixas de papelão, carrinho de bebê com outras roupas sujas, restos de comida, quinquilharias sem qualquer utilidade. E sujeira, muita sujeira ao redor de seres humanos.

Meu sentimento foi além da sensibilização. Logo, imaginei ratos a atravessar a rua, do bueiro ao encontro da família, a fim de satisfazer o instinto da fome, que faria mulher e criança animais como os roedores, a disputar restos de alimentos na batalha pela sobrevivência.

Lamentei a situação na qual se encontravam, antecipando, pessimista, o futuro que a criança aguardava. Imaginei-a maior, na plenitude da infância, mas precocemente entregue no dissabor do abandono, do crime, da violência e da droga.

Não fosse pela passagem de um homem, igualmente humilde, embora decidido a conduzir seus papelões até algum lugar, seu local de destino, não repeliria o pensamento negativo, do qual me envergonhei posteriormente.

A partir de então, desejei apenas que a criança tivesse em seu futuro uma situação diferente da que vive hoje. Não desejei a ela riqueza, tampouco facilidades, pois em momentos em que escassez se faz soberana e rigorosa, nada além de dignidade e afeto é necessário para a manutenção da vida.

28/06/2011

A menina que se fez rainha

A meia-noite e meia, quando o sono se preparava para arrebatar-me os sonhos, ela retornou subitamente à minha memória, com a mesma beleza e encantamento com que eu a enxergava com meus olhos e coração apaixonado de garoto de 15 anos.

Não sei ao certo por que me lembrei dela, mas a sua simples recordação roubou-se um suspiro profundo e um sorriso saudoso, que não se desenha a esmo. Ela foi a minha segunda paixão platônica, embora tenha sido a mais especial.

O sentimento que me tomava era tamanho, que a coragem não me faltou para que o meu amor lhe fosse declarado, ainda que tímida e rusticamente. Não me permiti o anonimato.

Lembro-me dos seus olhos castanhos, vivos e luminosos, tais como diamantes lapidados pelo mais experiente dos ourives. Lembro-me do sorriso, capaz de adubar e proporcionar colheita fértil de amor nos mais áridos corações.

Encontrava com minha amada pelos corredores da escola. Meu coração adolescente, condicionado a intensificar seus batimentos ao menor sinal de sua presença, disparava quando meus olhos a avistavam em qualquer direção. Meus olhos eram navios a acenar ao porto-coração a intenção de atracar em seu cais.

Era linda a minha amada, mas não apenas linda. Possuía ares angelicais, simples e ao mesmo tempo refinados, como princesa de contos de fada, como discreta dama da mais alta nobreza de um reino existente apenas em minha intimidade, do qual eu, mesmo em minha insignificância de plebeu, tomava a liberdade de coroá-la rainha.

Nada além de reciprocidade em olhares simpáticos e raras conversas aconteceram entre mim e ela. O amor platônico de outrora converteu-se em admiração deste humilde camponês à sua monarca, em reconhecimento à menina que se fez rainha no coração de um jovem apaixonado.